domingo, 26 de março de 2017

Lúcio Cardoso, "Sonho angustiado de libertação"


Quando a calma
dos que nada pedem
habitar em minha alma
escura e silenciosa;

Quando o sonho e a esperança
tiverem voado da terra
há muito desprovida de árvores;
Na hora em que o desespero

e a verdade, não mais
possuírem com carícias fogosas
meu espírito vazio
de gaivotas;

Quando a terra fria me abraçar
e eu tiver como única companheira
a morte,

eu terei a imagem
tão presente nos olhos
ansiosos.

sábado, 25 de março de 2017

Augusto de Campos










"Soneterapia 2"

tamarindo da minha desventura
não me escutes nostálgico a cantar
me vi perdido numa selva escura
que o vento vai levando pelo ar

se tudo o mais renova isto é sem cura
não me é dado beijando te acordar
és a um tempo esplendor e sepultura
porque nenhuma delas sabe amar

somente o amor e em sua ausência o amor
guiado por um cego e uma criança
deixa cantar de novo o trovador

pois bem chegou minha hora de vingança
vem vem vem vem vem sentir o calor
que a brisa do brasil beija e balança

quinta-feira, 23 de março de 2017

Marly de Oliveira, "1º poema da série 'Suave Pantera'"


Como qualquer animal,
olha as grades flutuantes.
Eis que as grades são fixas:
Ela, sim, é andante.
Sob a pele, contida
— em silêncio e lisura —
a força do seu mal,
e a doçura, a doçura,
que escorre pelas pernas
e as pernas habitua
a esse modo de andar,
de ser sua, ser sua,
no perfeito equilíbrio
de sua vida aberta:
una e atenta a si mesma,
suavíssima pantera.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Miguel Torga
















"Rogo"

Não, não rezes por mim.
Nenhum deus me perdoa a humanidade
Vim sem vontade
E vou desesperado
Mas assinei a vida que vivi
Doeu-me o que sofri
Fui sempre o senhorio do meu fado.

Por isso, quero a morte que mereço.
A morte natural,
Solitária e maldita
De quem não acredita
Em nenhuma oração
De salvação
De quem sabe que nunca ressuscita.

terça-feira, 21 de março de 2017

segunda-feira, 20 de março de 2017

Reinaldo Ferreira, "Eu, Rosie, eu se falasse, eu dir-te-ia..."


Eu, Rosie, eu se falasse eu dir-te-ia
Que partout, everywhere, em toda a parte,
A vida égale, idêntica, the same,
É sempre um esforço inútil,
Um voo cego a nada.
Mas dancemos; dancemos
Já que temos
A valsa começada
E o Nada
Deve acabar-se também,
Como todas as coisas.
Tu pensas
Nas vantagens imensas
De um par
Que paga sem falar;
Eu, nauseado e grogue,
Eu penso, vê lá bem,
Em Arles e na orelha de Van Gogh...
E assim entre o que eu penso e o que tu sentes
A ponte que nos une - é estar ausentes.

domingo, 19 de março de 2017

Teixeira de Pascoaes, "De noite"


Quando me deito ao pé da minha dor,
Minha Noiva-fantasma; e em derredor
Do meu leito, a penumbra se condensa,
E já não vejo mais que a noite imensa,
Ante os meus olhos íntimos, acesos,
Extáticos, surpresos,
Aparece-me o Reino Espiritual...
E ali, despido o habito carnal,
Tu brincas e passeias; não comigo,
Mas com a minha dor... o amor antigo.

A minha dor está contigo ali,
Como, outrora, eu estava ao pé de ti...
Se fosse a minha dor, com que alegria,
De novo, a tua face beijaria!

Mas eu não sou a dor, a dor etérea...
Sou a Carne que sofre; esta miséria
Que no silencio clama!

A Sombra, o Corpo doloroso, o Drama...

sexta-feira, 17 de março de 2017

Leis estranhas em Massachusetts (EUA)


Massachusetts

-- É ilegal ir para a cama sem tomar um banho completo.
-- Em atividades sexuais, a mulher não pode ficar por cima.
-- Servir cerveja a pacientes de hospital é ilegal.
-- Doces não podem conter mais de 1% de álcool.
-- No treinamento de tiro, é proibido usar alvos que se assemelham a seres humanos.
-- Crianças não são proibidas de fumar, mas são proibidas de comprar cigarro.
-- Em velórios, os enlutados não podem comer mais que três sanduíches.
-- Quacres e bruxas são proibidos.
-- Balas (de armas) não podem ser usadas como moeda.
-- Motoristas de táxi não podem fazer sexo no banco dianteiro durante o turno de trabalho.
-- Todos os homens devem levar um rifle à igreja, no domingo.
-- É proibido transportar gorilas no banco traseiro do carro.

quinta-feira, 16 de março de 2017

Paulo Henriques Britto, "Espiral"


A noite é um morcego manso
sobrevoando uma cidade quase adormecida,
tomando cada rua, cada casa,

como um cheiro adocicado de fruta
quase apodrecida que penetrasse uma casa,
ganhasse cada quarto, cada sala,

como cheiro morno de coisa morta
ainda há pouco se espalhando
por uma cidade quase entorpecida,

como uma noite que descesse sobre casas
mortas, como uma peste,
como se nunca houvesse havido dia.

A noite é um morcego morto.


quarta-feira, 15 de março de 2017

terça-feira, 14 de março de 2017

Abgar Renault, "Palavras para adormecer"


Dorme, que é tarde já na tua vida
e no teu coração, e o tempo não espera.
Dorme antes que se vá tua alma desvalida
e o teu corpo se empedre e se recubra de hera.

Por que velar de preces tua insônia estéril?
Um vento mau arrasta o som da tua voz
e arrasta o único círio a arder na noite a sós.
Dorme e adormece em ti a tua vida estéril.

Ainda estás vivo, mas teu coração parou.
Como diminuiu o tempo, que era enorme,
e que escuras estão tuas estrelas! Dorme.
O teu destino está cansado e o fim já se acabou.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Cecília Meireles














"Segundo motivo da rosa"

Por mais que te celebre, não me escutas,
embora em forma e nácar te assemelhes
à concha soante, à musical orelha
que grava o mar nas íntimas volutas.

Deponho-te em cristal, defronte a espelhos,
sem eco de cisternas ou de grutas…
Ausências e cegueiras absolutas
ofereces às vespas e às abelhas.

E a quem te adora, ó surda e silenciosa,
e cega e bela e interminável rosa,
que em tempo e aroma e verso te transmutas!

Sem terra nem estrelas brilhas, presa
a meu sonho, insensível à beleza
que és e não sabes, porque não me escutas…

sábado, 11 de março de 2017

Waly Salomão, "Câmara de ecos"


Cresci sob um teto sossegado,
meu sonho era um pequenino sonho meu.
Na ciência dos cuidados fui treinado.

Agora, entre meu ser e o ser alheio
a linha de fronteira se rompeu.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Abgar Renault, "Recanto de letras"


Leio-me, e não me encontro em verbo escrito.
Minhas palavras não escrevem ou
esqueceram meus ecos o meu grito,
ou meus olhos não leem mais quem sou.

O que em papel meu rastro deixa dito
é folha de hora que de mim voou,
foi lugar no meu súplice infinito;
nele vivo, talvez, mas não estou.

(As palavras são rostos de um momento,
e contam frágeis fábulas de vento
em bocas que falaram nossa voz.)

Mal releio na sombra do retrato
de letras que escrevi no ontem abstrato
minha face de vida e prévio após.

quarta-feira, 8 de março de 2017

Nicolas Behr, "Receita"


Ingredientes:

2 conflitos de gerações
4 esperanças perdidas
3 litros de sangue fervido
5 sonhos eróticos
2 canções dos beatles

Modo de preparar

dissolva os sonhos eróticos
nos dois litros de sangue fervido
e deixe gelar seu coração

leve a mistura ao fogo
adicionando dois conflitos de gerações
às esperanças perdidas

corte tudo em pedacinhos
e repita com as canções dos beatles
o mesmo processo usado com os sonhos
eróticos mas desta vez deixe ferver um
pouco mais e mexa até dissolver

parte do sangue pode ser substituído
por suco de groselha
mas os resultados não serão os mesmos
sirva o poema simples ou com ilusões

terça-feira, 7 de março de 2017

Paulo Henriques Britto, "Geração Paissandu"


Vim, como todo mundo,
do quarto escuro da infância,
mundo de coisas e ânsias indecifráveis,
de só desejo e repulsa.
Cresci com a pressa de sempre.

Fui jovem, com a sede de todos,
em tempo de seco fascismo.
Por isso não tive pátria, só discos.
Amei, como todos pensam.
Troquei carícias cegas nos cinemas,
li todos os livros, acreditei
em quase tudo por ao menos um minuto,
provei do que pintou, adolesci.

Vi tudo que vi, entendi como pude.
Depois, como de direito,
endureci. Agora a minha boca
não arde tanto de sede.
As minhas mãos é que coçam -
vontade de destilar
depressa, antes que esfrie,
esse caldo morno da vida.

segunda-feira, 6 de março de 2017

domingo, 5 de março de 2017

Cecília Meireles, "Palavra"


Espada entre flores,
rochedo nas águas,
assim firmes, duras,
entre as coisas fluidas,
fiquem as palavras,
as vossas palavras.

Pois se por acaso
dentro dos sepulcros
acordassem as almas
e em sonhos confusos
suspirassem rumos
de histórias passadas
e houvesse um tumulto
de ânsias e de lágrimas,

– lembrassem as lágrimas
caídas no mundo
nas noites amargas
cercadas dos muros
das vossas palavras.
Todas as palavras.

Nos espelhos puros
que a memória guarda,
fique o rosto surdo,
a música brava
do humano discurso.
De qualquer discurso.

Só de morte exata
sonharão os justos,
saudosos de nada,
isentos de tudo,
pascendo auras claras,
livres e absolutos,
nos campos de prata
dos túmulos fundos.

No meio das águas,
das pedras, das nuvens,
verão as palavras:
estrelas de chumbo,
rochedos de chumbo.
A cegueira da alma.
O peso do mundo.

Adeus, velhas falas
e antigos assuntos

sábado, 4 de março de 2017

Paulo Mendes Campos, "Fragmentos em prosa"


Nasci a 28 de fevereiro de 1922, em Belo Horizonte,
No ano de Ulysses e de The Waste Land,
Oito meses antes da morte de Marcel Proust,
Um século depois de Shelley afogar-se no golfo de Spezzia.
Nada tenho com eles, fabulosos,
Mas foi através da literatura que recebi a vida
E foi em mim a poesia uma divindade necessária.

Da casa em que nasci não me lembro nada.
Contam que via o demônio e o apontava na parede,
Alvoraçadamente, como se fora um anjo.
Minha vida começa em Saúde, arraial da minha infância,
De que cito algumas estampas essenciais:
Eu e Íris brincando no jardim.
Íris no caixão sobre a mesa escura.
A notícia do assassinato de meu tio Arquimedes,
Chegada cautelosamente no serão familiar,
Seu Rodolfo caçador com sua perna de pau
(Derrubou o cacho de cocos com um tiro),
Minha mãe, revólver em punho, procurando ladrão no quintal,
O leproso dos Correios que comia ovos cozidos,
A besta Mascote, a besta Mansinha,
Meu encontro com a morte de um tuberculoso em uma casa desconhecida,
O guizo da mula sem cabeça tilintando na várzea.
Lembro-me da partida sem pena.
Ainda hoje, quando subo os degraus do avião, do navio,
É sempre a mesma emoção, uma alegria doloridamente física,
Uma névoa infantil nos olhos, imitando as lágrimas,
Uma pulsação dentro de mim como antes de um beijo.

Não sei se foi feliz a minha primeira infância.
Não trouxe no coração uma saudade direta
E tive terror dos mascarados e do batuque noturno dos tambores.

Em Belo Horizonte,
Ao grito de “avião! avião!” corria para a rua em uma agitação de fim de
                                                                                           [mundo.
Quantas tristezas de sexo precoce eu tive!
Não sei como dizer de todas as aflições
Quando senti, como um alarme, a violência do corpo.
Muitos anos esperei em dor para ter nos braços a mulher
E quando penso nisso sinto uma vontade pesada de ajoelhar.

As primeiras letras. Meu ódio à disciplina.
O mistério do pátio das meninas.
Minha primeira paixão chamava-se Maria e usava tranças.
Minha segunda paixão chamava-se Maria e tinha olhos bonitos.
A minha terceira paixão chamava-se Maria.

Brincar de grande era a gente mesmo, a correr em cavalos de pau,
Brincar de pequeno era retirar da caixa as figuras recortadas
E tecer os enredos.
As fitas em série aos domingos: O Grande Guerreiro!
Os filmes de cobói: Bob Steele! Buck Jones!
Ruas de Nova Iorque! Tempestade sobre a Ásia!
Os livros! A importância de retirar um livro da Biblioteca Pública!
Robinson, Gulliver, Dom Quixote! O Duplo assassinato da rua Morgue!
Quando veio a revolução de 30 estava de braço quebrado.
As negras se arrastavam da Barroca até a Serra
E aí chegavam famintas, esfarrapadas, apavoradas.
Lembro de meu pai comprando e distribuindo alimentos no armazém.
Da Caixa D’água da Serra, aos oito anos,
Vi pela primeira vez um avião atirar bombas.
Nossas molecagens! Nossas maldades!
Furto de frutas! A incrível pontaria de Mário Carolla!
As brigas da quadrilha do Abrigo Pernambucano.
O desprezo pela polícia, as excursões ao Banheirinho.
As árvores não cresciam em nossas ruas,
A grama não pegava nos jardins,
As lâmpadas não ficavam nos postes.

O resto de coragem física em mim vem desses tempos.

O Colégio Arnaldo, aversão à matemática, nulidade em desenho,
O dedo imenso e estúpido do Padre Coqueiro…

Aos onze anos, armado de revólver, fugi de casa.

Foi o romancista Osvaldo Alves que me vendeu latas de conservas no
                                                                                      [armazém.
Em companhia de Georges e Aristeu,
Demandei Goiás em busca de índios.
A primeira sede violenta,
O desconhecido amedrontando e tentando,
Cardoso, venho lenheiro, homem bom já falecido, que em sua casa na
                                               [Mutuca nos deu cama de palha, café
                                               [com broas e conselhos mansos:

Acho que vocês vão dar uma estopada, meninos. O mundo é grande!
Reprovado no primeiro ano ginasial,
Fui mandado para o colégio inter no de Cachoeira do Campo.
Lágrimas convulsas na primeira noite.
Lágrimas depois em muitas noites.
Conheço a pusilanimidade, a traição, a delação.
Conheço a covardia, a bofetada de um padre.

Feroz e indisciplinado é o coração da infância.

Experiência da solidão:
Um grande pátio com uma paineira e um retângulo no alto
De estrelas.
A saudade à hora do crepúsculo estragou-me todos os outros crepúsculos.
Tragédias do sexo e da afeição
Tiveram apenas o testemunho irreal dos professores.
Minha rebeldia fez-me a vida infeliz.
Meu medo do inferno fez-me a vida infeliz.
Minha sensibilidade fez-me a vida infeliz.
Meu tempo de internato em Dom Bosco, durante três anos intermináveis,
                                               [foi uma coisa infeliz, irremediavelmente
                                               [infeliz, até hoje infeliz.

No segundo ano, segundo a linguagem salesiana,
Comecei a ficar tíbio; participava da Société Impieté
Como um de seus mais revoltados membros.

Devo a Mário Lúcio Brandão minhas primeiras conversas literárias.
Achávamos uma injustiça Abílio Barreto não pertencer à Academia
                                                                    [Brasileira de Letras.
Não esquecer as férias e o esperar por elas;
O sorriso de convivência feliz e de vingança contra o assistente,
Quando a primeira horda de bichinhos de luz invadia o estudo da noite,
prenunciando as férias.
Não esquecer os cigarros fumados sob o risco de dez escasso,
Não esquecer os tapas nas caras dos xibungas, dos decuriões,
Não esquecer nada que seja contra o Colégio Dom Bosco,
Nada que haja escapado à vigilância.
Nenhuma rebeldia.
Alunos fortes que desafiavam professores,
Putas-que-o-pariu na cara deles,
Nada esquecer,
Os que fugiam e levavam os nossos votos de boa sorte,
O ridículo de certos pe-da-go-gos,
A oratória besta de Padre Benedito,
A vaidade de Padre Alcides,
A cara cruel de seu Yzver,
A raposice de um, lambdacismo de outro.
Não esquecer…
Não esquecerei nada.
Seu João Maria me chamava de Laplace:
Não me puniu quando me viu roubar laranjas.
Obrigado, seu João Maria,
seu Vicente era manso e consolava os que choram.
Obrigado, seu Vicente.
Seu Gilberto era um ótimo sujeito.
Obrigado, seu Gilberto.
Era suave o perfume do eucalipto, suave era o ar,
Doces eram as laranjas, as ameixas, as jabuticabas,
Majestosos eram os pinheiros,
Frescas eram as águas nascentes,
Ásperos e belos os caminhos da montanha.
Coisas da natureza, obrigado, obrigado.
Obrigado, amigos meus.

Que contentamento deixar Dom Bosco e seus fantasmas!
Ah! se pudesse levar apenas o aroma das resinas!
Que contentamento tomar o trem na antiga Hargreaves
E voltar à casa. Que alvoroço de abelhas voltar!
Foi em Georges Bernanos que li esta passagem que sempre me comoveu.
“A honra e a pouca coragem que possuo herdei-as da criatura, hoje para mim misteriosa, que caminhava sob a chuva de setembro, através dos campos encharcados de água, o coração já cheio do próximo regresso, dos recreios fúnebres, onde a acolheria logo o negro inverno, dos refeitórios invadidos de um hálito gorduroso, das intermináveis missas cantadas, onde uma pequena alma fatigada só poderia compartilhar com Deus o seu tédio — criança que fui e que é hoje para mim como um antepassado. Por que, entretanto, terei mudado? Por que mudarei? As horas me são medidas, as férias vão terminar como sempre e o pórtico negro que me espera é ainda mais negro do que o outro.”

Em 1937, fui para o Ginásio de Santo Antônio, em São João del-Rei,
De sadios holandeses franciscanos.
Várias liberdades desconhecidas:
A de fumar,
A de pôr as mãos dos bolsos,
A de fazer rodinhas,
A de sentar-se nos recreios,
A de conversar com maiores e menores,
A de sair aos domingos,
A de namorar,
A de opinião.

Pouco a registrar.
O esporte,
As namoradas sem consistência,
Os primeiros amigos mortos, a desfiar um rosário de tristezas minhas,
Aplicação e desprezo pelos estudos,
Uma adivinhação de poesia nos florilégios estúpidos,
Estudos de gramática portuguesa
(Nasóculos, quotiliquê, ludopédio),
Romances: Júlio Diniz, Júlio Verne, Camilo, Coelho Neto;
Desorientadas e frustradas inquietações políticas e patrióticas;
A amizade dura de Frei Godberto;
Orador do grêmio Literário Jackson de Figueiredo;
A vontade de escrever uma coisa;
O medo da morte;
O medo do tempo.

Registrem-se ainda algumas ternuras da memória:
A voz grossa e rápida de Frei Rufino,
A vaguidão de Frei Lau querendo escrever com o charuto,
O irrepreensível Frei Norberto,
O sorridente Frei Virgílio,
Un tas de choses,
Coisas inocentes que gelam dentro de mim um bloco de saudade.

Ginasial — é o grau de instrução que tenho.
Em 1940, em Porto Alegre,
Aluno da Escola Preparatória de Cadetes,
Queria ser aviador.
Em dez meses de disciplina, de estudos bélicos,
De marchas, de ordem unida, maneabilidade,
Manobrando fuzis e metralhadoras,
Não descobri dentro de mim, sob a farda, o soldado.
Fui definitivamente um paisano.

Elza era delicada e ia ser dentista.
Altamira apaixonou-me logo, muito branca de olhos verdes.
Uma judia guardei como lembrança de perfeição adolescente.
Também as decaídas inesquecíveis.
As putas são ásperas e guardam purezas intratáveis.

Os dias de acampamento ficaram inesquecíveis
Com suas estrelas
Suas alvoradas em cima do Guaíba,
E o brincar de guerra em correria pelos montes.
Inesquecível minha fuga, à noite, por uma corda
E os dez dias de cadeia que se seguiram
Ao lado de um colega de pincenê que lia O Vento Levou.
Em Florianópolis, um catraieiro me salvou de morrer afogado.
Inesquecível.

A adolescência é um tribunal inesperado:
O julgamento do pai pelo filho,
O julgamento do filho pelo pai.

Nesse conflito de culpas, apreensões, incertezas,
Está o mistério dos caminhos da vida sempre errados.
Toda a perplexidade do homem cabe no encontro do pai e do filho
Quando se encaram com um rancor de acusados à luz da madrugada.
Cabe às mulheres a melhor parte do amor e do sofrimento
Porque as mães não podem julgar.
Na ternura milagrosa das mulheres
É como se o filho não houvesse se desprendido do ventre —
E este é o mais simples e doce de todos os mistérios.

Em 1939, cursando o primeiro ano complementar de Odontologia.
Ainda tonto e feliz da liberdade, caí de amores.
Chamava-se Maria e era linda e magra.
Que sofrimento olhar o tempo quando se ama.
Só a lembrança de teu chapéu de palha, Maria,
Nas tardes cálidas do Minas Tênis me arrancariam muitas lágrimas.
Fantasiou-se de pirata no carnaval e me deixou.
Morreu tuberculosa, de repente. Fui à missa de sétimo dia.
Desde então me arrepio quando escuto o Dies Irae.

Outra Maria. Maria Elvira.
Deu-me o carinho de suas pernas claras.
Obrigado, Maria.
Simpáticas como você há poucas.
Poucas têm olhos cinzentos tão lindos quanto os seus,
Poucas tanta fraqueza no desejo da carne como você.

Vem de longe, dos tempos de ginásio, o meu gosto pelo álcool.
Vem de mais longe talvez, de regiões oprimidas da infância,
De um ancestral incompetente, de uma horda de heranças infelizes,
Uma vontade de falar, de cuspir.

Folha morta, déçà, délà, fui arrastado pelas ruas
Na tranqüilidade fresca da madrugada de Minas.
Havia um poder suicida em cada coisa:
O vento era uma coisa forte e me estremecia,
O azul era uma coisa forte e me estremecia,
A mulher era uma coisa forte e me estremecia,
A aurora, a tarde arrastando-se no quintal,
Tudo me estremecia e me empurrava para a vida e para a morte.
Em meus versos havia uma força louca de poesia,
Nos pensamentos meus e alheios radiavam deuses violentos,
Em todos os meus gestos, uma grandeza pensada e magnífica.

Ó confusa adolescência! já não entendo teu clamor,
Tuas vigílias, tuas angústias, as armas de teu combate.
Meu rosto está sereno quando penso em ti
Mas bem no íntimo tenho uma vontade de unhar-me,
De esbofetear-me, de morrer. Morreu contigo
O sol denso da tragédia. Morreu contigo
O pássaro rubro amigo de meu ombro. Morreu contigo
Uma palpitação, um frêmito constante. Morreu contigo
Meu inconformismo cruel, minha dignidade na desgraça. Contigo
A parte de mim mais infeliz e fiel.

Copiado do site https://prosaempoema.com do Paulo Sabino.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Abgar Renault















"Como quem pede uma esmola"

Preciso de uma palavra.
Em que dia ou em que noite
estará essa, que almejo,
ideal palavra insabida,
a única, a exclusiva, a só?
Dela me sinto exilado
todas as horas por junto,
com minha face, meu punho,
meu sangue, meu lírio de água.
Soletro-me em tantas letras,
e encontrá-la deve ser
encontrar a criança e o berço,
a unidade, a exatidão,
o prado aberto na rua,
a rua galgando a estrela.
Preciso de uma palavra,
uma só palavra rogo,
como quem pede uma esmola.
Em florestas de palavras
os calados pés caminham,
as caladas mãos perquirem,
os olhos indagam firmes.
Em que parábola cruel,
em que ciência, em que planeta,
em que fronte tão hermética,
em que silêncio fechada
estará viajando agora
- mariposa de ouro azul -
a palavra que desejo?
Lâmina sexo cristal
fulcro pântano convés
voraginoso fluvial
Antígona circunflexa
catastrófico crepúsculo
ênula ventre rosal
sibila farol maré
desesperadoramente
nenhuma será nem é
aquela do meu anseio.
Como será, quando vier,
a palavra entrepensada,
necessária e suficiente
para a minha construção
de lápis, papel e vento?
Dura, espessa, veludosa
ou fina, límpida, nítida?
Asa tênue de libélula
ou maciça e carregada
de algum plúmbeo conteúdo?
Distante, insone e cativo,
debaixo da chuva abstrata,
eu me planto decisivo
no tráfego confluente,
aéreo, terrestre, marítimo,
e espero que desembarque,
triste e casta como um peixe
ou ardendo em carne e verbo,
e pouse na minha mão
a áurea moeda dissilábica,
a noiva desconhecida,
a coroa imperecível:
a palavra que não tenho.