domingo, 25 de junho de 2017

Florbela Espanca














"Supremo enleio"

Quanta mulher no teu passado, quanta!
Tanta sombra em redor! Mas que me importa?
Se delas veio o sonho que conforta,
A sua vinda foi três vezes santa!

Erva do chão que a mão de Deus levanta,
Folhas murchas de rojo à tua porta...
Quando eu for uma pobre coisa morta,
Quanta mulher ainda! Quanta! Quanta!

Mas eu sou a manhã: apago estrelas!
Hás de ver-me, beijar-me em todas elas,
Mesmo na boca da que for mais linda!

E quando a derradeira, enfim, vier,
Nesse corpo vibrante de mulher
Será o meu que hás de encontrar ainda...

sábado, 24 de junho de 2017

Ivan Junqueira, "O náufrago"


Na curva suave da tarde,
entre as algas e os sargaços,
que ungem a crista das vagas,
um homem, errático, arfa
e nada em busca da praia
a que não chegam seus braços.
Sem bússula ou carta náutica,
leme, sextante, astrolábio,
nada em direção ao nada,
ao que restou de sua alma
que um dia vendeu ao diabo,
como na lenda de Fausto,
em troca da glória fátua
e um grão de imortalidade.
Enquanto nada e se exaure,
toda a vida que levara
vai refluindo, aos pedaços,
como um filme enevoado
que na tela projetasse
as imagens ao contrário.
Mas o que informa o relato,
sem legendas que o aclarem,
é bem mais do que ele narra
em sua língua enrolada:
é a crônica de uma fraude
de quem rasgou o relato
e perdeu a identidade,
de quem, por julgar-se raro,
se esqueceu de que o vulgar
é também aristocrático,
na medida em que decarna
o rei até a carcaça
e o põe nu, e o equipara
ao mais humilde vassalo.
Na curva suave da tarde,
um homem nada. E naufraga.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Mário de Sá-Carneiro, "Último soneto"


Que rosas fugitivas foste ali:
Requeriam-te os tapetes — e vieste ...
— Se me dói hoje o bem que me fizeste,
É justo, porque muito te devi.

Em que seda de afagos me envolvi
Quando entraste, nas tardes que apareceste ­
Como fui de perca! quando me deste
Tua boca a beijar, que remordi ...

Pensei que fosse o meu o teu cansaço
Que seria entre nós um longo abraço
O tédio que, tão esbelta, te curvava ...

E fugiste ... Que importa? Se deixaste
A lembrança violeta que animaste,
Onde a minha saudade a Cor se trava?

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Manuela Amaral, "Ser tudo não me basta"


Não sou homem
nem mulher
nem lésbica
ou pederasta

Sou tudo

Mas ser tudo
não me basta

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Fernando Pessoa, "Fosse eu apenas, não sei onde ou como..."


Fosse eu apenas, não sei onde ou como,
Uma cousa existente sem viver,
Noite de Vida sem amanhecer
Entre as sirtes do meu dourado assomo …

Fada maliciosa ou incerto gnomo
Fadado houvesse de não pertencer
Meu intuito gloríola* com ter
A árvore do meu uso o único pomo …

Fosse eu uma metáfora somente
Escrita nalgum livro insubsistente
Dum poeta antigo, de alma em outras gamas,

Mas doente, e, num crepúsculo de espadas,
Morrendo entre bandeiras desfraldadas
Na última tarde de um império em chamas …


*gloríola - Pequena glória, boa reputação injustificada.

domingo, 18 de junho de 2017

Helder Macedo, "Orfeu"


Não é bastante
que eu reconheça a minha solidão
e a queira como início dum caminho.
Não é bastante
ser livremente tudo quanto sei
e estar aberto a tudo o que serei.
Tudo o que fui e o que sou e o que serei
já são iguais
no tempo do meu todo ignorado.
Quero abrir o que as palavras não descrevem
para já não responder ao sim e ao não
do meu espelho conhecível.
Já não me basta apenas dar um nome
à morte que me cabe enquanto vivo
porque morrer é ter perdido a morte
para sempre
tornando sem sentido o sim e o não
com que me circundei e defini-me.
Conheço-me as fronteiras.
Quero o resto.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Carlos Drummond de Andrade









"Amor e seu tempo"

Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe

valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Ivan Junqueira














"Prólogo"

Eu sou apenas um poeta
a quem Deus deu voz e verso.
Na infância, quando fui relva,
sentia os pés dos efebos
a calcar-me as frágeis vértebras
e colhia das donzelas
o frêmito que, venéreo,
era um augúrio da queda.

Depois, quando fui cipreste,
vi como o vento, em seus dédalos,
cingia-me a áspera testa
e tangia-me as ideias
que nos ramos, vãs quimeras,
pousavam como uma névoa,
úmidas ainda das trevas
e do abismo de que vieram.

Quando fui córrego, as pedras
me ensinaram que o critério
do que em tudo permanece,
nunca está nelas, inertes,
mas nas águas que se mexem
com vário e distinto aspecto,
de modo que não repetem
o que antes foi (e era breve).

Quando enfim galguei o vértice
de alguém que eu mesmo não era,
compreendi que esse processo
de sermos outros (e até
termos em nós outro sexo)
nada em si tinha de inédito:
já se lia no evangelho
de um deus ambíguo e pretérito.

E assim fui sendo esse leque
de coisas fluidas e inquietas,
jamais levianas, bem certo,
mas antes, em seu trajeto,
vertentes as mais diversas
de uma só e única célula:
a da matriz que não é
senão seu próprio reverso.

Espelho de meus espectros,
urna de engodo e miséria,
alma sôfrega e sem tréguas,
osso escasso no deserto
onde jejua um profeta,
solidão, infâmia e tédio
– eu sou apenas um poeta
a quem Deus deu voz e verso.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Hilda Hilst, "Vº poema da série 'Alcoólicas'"














"Te amo. Vida..."

Te amo, Vida, líquida esteira onde me deito
Romã baba alcaçuz, teu trançado rosado
Salpicado de negro, de doçuras e iras.
Te amo, Líquida, descendo escorrida
Pela víscera, e assim esquecendo.

               Fomes
               País
               O riso solto
              A dentadura etérea
              Bola
              Miséria.

Bebendo, Vida, invento casa, comida
E um Mais que se agiganta, um Mais
Conquistando um fulcro potente na garganta
Um látego, uma chama, um canto. Ama-me.
Embriagada. Interdita. Ama-me. Sou menos
Quando não sou líquida.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Lúcio Cardoso, "Tempo de espera"


Resta o silêncio imutável
e as aparições no tempo
em que o trem foge em busca louca
de passageiros que partiram.

Resta o frio do marmóreo e o imutável
silêncio do gelo imutável.

E quem ficou na longa espera,
e quem partiu na longa ruga,
ficou saudoso do tempo de espera
e saudoso do tempo de partida.

sábado, 10 de junho de 2017

Glauco Mattoso, "Engaiolado"


Os pássaros povoam a visão
idílica dos bardos inspirados:
pardais e sabiás ressabiados;
o melro, o rouxinol, canoro ou não.

Algumas outras aves também são
tetéias dos poetas nestes lados:
jandaias, assuns pretos, que, furados
seus olhos, mais bonito cantarão.

Arrulhos e trinados e gorjeios
povoam os ouvidos dos poetas...
Os não sentimentais estão é cheios!

A mim, são preferíveis as discretas:
coruja, por exemplo, ou uns mais feios:
o pato e o urubu: pé chato e infectas...

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Al Berto












10 abril 1985                                rua do forte

       
levo uma noite portátil no coração e um cão de lume guarda os silêncios o
corpo da traição
          são horas de caminhar fora de mim ao teu encontro
          vou
          tropeçando na luz das avenidas
          ... o olhar preso ao interior dos passos onde não estás
          levo numa noite transistorizada

          na brancura do dia caminho para ti. silencio o corpo da noite ao
teu encontro tropeçando num som e no cão de lume que tens de guarda ao coração


quinta-feira, 8 de junho de 2017

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Alice Ruiz, "Noite e dia"


Não me agradam
essas coisas que despertam
barulho, susto, água fria
tudo na minha cara
mais nenhum sonho por perto.

Não me agradam
essas coisas que adormecem
vazio, escuro, calmaria
tudo que lembra morte
quando nada mais dá certo.

Não me agradam
essas coisas sem poesia
uma noite só noite
um dia só dia.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Leis estranhas no Mississípi (EUA)


Mississípi

-- A pessoa que tiver dois filhos ilegítimos irá para a cadeia por pelo menos um mês.
-- Cidades e condados não podem regulamentar rótulos nutricionais.
-- Um homem não pode seduzir uma mulher, mentindo para ela ou prometendo se casar com ela.
-- Ninguém pode subornar um atleta, para burlar um jogo ou um campeonato.
-- É ilegal ensinar a outras pessoas o que é poligamia.
-- Adultério ou fornicação (viver juntos, sem casamento, ou fazer sexo com alguém que não é cônjuge) resulta em multa de US$ 500 e seis meses de cadeia.
-- Relações sexuais não naturais são condenadas com pena de prisão de 10 anos e multa de US$ 10 mil.
-- É ilegal para o homem ficar sexualmente excitado em público.
-- É ilegal ir para a cama sem tomar banho.
-- Roubo de gado é punível com enforcamento.
-- Cavalos devem ser mantidos a pelo menos 15 metros de estradas.
-- Uso de linguagem profana em lugares públicos gera multa de US$ 100.
-- Civis não podem prender uma pessoa por perturbar serviço religioso.
-- Vagabundagem é punida com 30 dias de cadeia ou multa de US$ 250.
-- Em Ridgeland: é ilegal fazer sexo em público.
-- Em Tylertown, é ilegal fazer a barba no centro da rua principal.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

domingo, 4 de junho de 2017

Konstantinos kaváfis












"Tanto contemplei..."

Tanto contemplei a beleza
que minha vista dela se fartou.

Linhas do corpo. Lábios rubros. Membros sensuais.
Cabelos como que tomados de estátuas gregas:
sempre belos, mesmo quando estão despenteados,
e caem, um pouco, sobre a fronte branca.
Rostos do amor, assim como os desejava
minha poesia... nas noites de minha juventude,
em minhas moites, às ocultas, encontrados...

sábado, 3 de junho de 2017

Antônio Carlos Secchin, "Língua negra, Rio 30 graus"


Bem longe explode em preto
a pele cósmica de uma estrela,
aqui arde em silêncio
a pele grossa de uma vela.
Negra é a língua que se enreda
para um salto sem saber o que a espera.
Negra, negra língua,
com seu gosto de esgoto e de quimera.
Língua que se desfaz, liquefeita,
na cachaça trôpega dos bares da favela.
Língua que ao pó retorna, heroína
celebrada na veia aberta das vielas.
Passos que galopam para o abismo,
expulsando a pontapés a primavera.
Um fio de luz desmancha o frio.
Anoitece no Rio de Janeiro.