terça-feira, 21 de novembro de 2017

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Ruy Espinheira Filho





















"Janeiro"

Janeiro descia com as chuvas e inventava besouros.
e borboletas e pássaros e girinos e
caminhávamos descalços no barro
e lá estavam as lavadeiras com suas coxas
                        morenas e fortes como a água
e que todas as noites me assombravam
calidamente.

Janeiro soprava um vento de primeiro instante de tudo
e o que respirávamos se chamava manhã
                                                                e foi
o que eu quis te ofertar porque eras tão bela.

Mas isso aconteceu depois, Depois
como agora.
                                                                  E é para sempre
para nunca mais
                                                                  este exílio.

domingo, 19 de novembro de 2017

Nicolas Behr













"Praça dos 3 poderes"

os três poderes são um só:
o deles.


sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Sophia de Mello Breyner Andresen, "Corpo"


Corpo serenamente construído
Para uma vida que depois se perde
Em fúria e em desencontro erguidos
Contra a pureza inteira dos teus ombros.

Pudesse eu reter-te no espelho
Ausente e mudo a todo outro convívio
Reter o claro nó dos teus joelhos
Que vão rasgando o vidro dos espelhos.

Pudesse eu reter-te nessas tardes
Que desenhavam a linha dos teus flancos
Rodeados pelo ar agradecido.

Corpo brilhante de nudez intensa
Por sucessivas ondas construído
Em colunas assente como um templo.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Fernando Pessoa, "O outro amor"


Com que fúria ergo a ideia dos meus braços
Para a ideia de ti! Com que ânsia bebo,
Os olhos pondo em teus sonhados traços,
Todo o fêmea em teu corpo de mancebo!

Teu hálito sonhado até cansaços
Como em meu vivido hálito recebo!
Ó carne que já sonho és tantos laços
Para mim! Deusa-deus; Vénus-Efebo!

Ó dolorosamente só-sonhado!
Soubesse eu o feitio exterior e o jeito
Em gestos e palavras e perfeito

As palavras a dar a este pecado
De só pensar em ti, de ter o peito
Opresso em pensar-te entrelaçado!


quarta-feira, 15 de novembro de 2017

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

José Godoy Garcia, ""As grades, nossa confiança"


As casas estão guardadas. As casas, nossas casas,
estão cercadas a ferro, contra ladrões.
Mais felizes que as moças, as que são violentadas
nas horas noturnas e nas horas do dia, as casas,
nossas casas, estão vigiadas pelos cães,
pelos guardas, pelas grades de ferro enormes.
Em Brasília, virgem imaculada, os tapumes
sobem a mil metros e são como lanças
dos velhos guerreiros de impérios loucos;
os habitantes olham por entre os ferros
e se imunizam do mundo, as grandes lanças
de pontas superagudas desafiam o invasor.
Ninguém ultrapassará os umbrais de nossas
casas, em Brasília, em Goiânia, Uberaba.
Há infinitos seres perversos lá fora.
Mas aqui dentro nós vivemos nossa paz.

Não passarão, nem o temporal, nem duendes,
nem a memória, nada, estamos ilhados,
cercados, vigiados, seguros, prontos,
solertes, imaculados da sanha inimiga
que ronda lá fora, como pássaros e
répteis loucos famintos de vingança
contra nossa vitória na vida,
nossa honra, nossa oração, nossa
santidade, nossa serena confiança
nas instituições e em Deus.

domingo, 12 de novembro de 2017

Bueno de Rivera, "O microscópio"


O olho no microscópio
vê o outro lado, é solene
sondando o indefinível.

Dramática a paciência
do olho através da lente,
buscando o mundo da lâmina.

A tosse espera a sentença,
o leito aguarda a resposta.
O tísico pensa na morte.

O silêncio é puro e o frio
envolve o laboratório.
Os frascos tremem de susto.

O infinito dos germes
reflete o olho imenso
que pousa na objetiva.

O avental se levanta.
Os dedos inconscientes
escrevem a palavra rápida.

O resultado terrível
entra nos óculos do médico
e ele diz: positivo.

O doente tira o lenço.
Aperta a mulher e o filho,
chora no ombro da esposa.

Imagina a reclusão
no sanatório, a saudade
e o vento no quarto branco.

Olha o papel: positivo.
Cresce a palavra com a tosse.
A febre queima a esperança.

O microscopista, no entanto,
conta anedotas no bar.
Está alheio e feliz.

Não sabe que o olho esquerdo
ditou a sentença e a morte.
Paga o café e caminha.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Emílio Moura, "Adolescência"


O que havia nas horas que passavam
e ardia, ardia, no ar, imensamente;
o que havia (era tanto!) e já formava
um ser que se buscava e se não via,

era um mas, ou um talvez, era a incerteza
do que, sendo, não sendo, se furtava
à vista que, no entanto, a si se dava
o que, essência de sonho, já floria.

Eram germes de mitos que nasciam,
o amor sorrindo, absurdo, à eternidade
de um momento, não mais, talvez nem isso.

Era a voz das distâncias sem limites,
a alma boiando, fluída, sobre o mundo,
era o medo da morte, sempre a morte.




quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Fernando Pessoa (Álvaro de Campos), "Magificat"


Quando é que passará esta noite interna, o universo,
E eu, a minha alma, terei o meu dia?
Quando é que despertarei de estar acordado?
Não sei. O sol brilha alto,
Impossível de fitar.
As estrelas pestanejam frio,
Impossíveis de contar.
O coração pulsa alheio,
Impossível de escutar.
Quando é que passará este drama sem teatro,
Ou este teatro sem drama,
E recolherei a casa?
Onde? Como? Quando?
Gato que me fitas com olhos de vida, quem tens lá no fundo?
É esse! É esse!
Esse mandará como Josué parar o sol e eu acordarei;
E então será dia.
Sorri, dormindo, minha alma!
Sorri, minha alma, será dia!

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Charles Bukowski, "Já morreu"


sempre quis transar com
henry miller, ela disse,
mas quando cheguei lá
era tarde demais.
diabos, eu disse, vocês
sempre chegam tarde demais, garotas.
hoje já me masturbei
duas vezes.
não era esse o problema dele,
ela disse. a propósito
como você consegue bater
tantas?
é o espaço, eu digo,
todo o espaço entre
os poemas e os contos, é
intolerável.
você deveria esperar, ela disse,
você é impaciente.
o que você pensa de céline?
perguntei.
queria transar com ele também.

já morreu, eu disse.
já morreu, ela disse.
importa-se de ouvir uma
musiquinha? perguntei.
pode ser legal, ela disse.
dei-lhe ives.
era tudo que me restava
naquela noite.

Tradução de Pedro Gonzaga

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Victor Loureiro, "A mãe e o rio"


O rio toca seu curso atento.
Empurra à foz
notas tardias da noite
e puxa, rumo a nascente,
a brisa precoce da manhã.
A mãe bebe nessa corrente
e desce os olhos sobre o filho
com o mesmo amor
que a água tem pelo rio,
o mesmo cuidado
que no voo, a asa.

domingo, 5 de novembro de 2017

sábado, 4 de novembro de 2017

Konstantinos Kaváfis, "Voluptuosidade"


Regozijo a essência de minha vida, a lembrança das horas
em que achei e guardei a voluptuosidade como a desejava.
Regozijo a essência de minha vida, da minha, em que detestei
todo desfrute de amores rotineiros.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Sophia de Mello Breyner Andresen, "Iº Soneto do Sinal de Vida"


Não darei o Teu nome à minha sede
De possuir os céus azuis sem fim,
Nem à vertigem súbita em que morro
Quando o vento da noite me atravessa.

Não darei o Teu nome à limpidez
De certas horas puras que perdi,
Nem às imagens de oiro que imagino
Nem a nenhuma coisa que sonhei.

Pois tudo isso é só a minha vida,
Exalação da terra, flor da terra,
Fruto pesado, leite e sabor.

Mesmo no azul extremo da distância,
Lá onde as cores todas se dissolvem,
O que me chama é só a minha vida.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Paulo Henriques Brito, "IIº Soneto da Biographia literária, 'Não volta mais, aquele voo cego'"


Não volta mais, aquele voo cego
rumo ao que nunca esteve lá, porém
só surge em pleno ar. E não renego
a rota tonta que segui. Ninguém
se faz em linhas retas. Todo porto
a que se chega é a meta desejada.
E o caminho tomado, por mais torto,
acaba sempre sendo a exata estrada
a dar naquilo que, afinal, se é.
Assim, todo e qualquer passado, até
o que se esqueceria, se pudesse,
vai pouco a pouco virando uma espécie
de bala que se chupa com deleite,
mesmo se azeda. Isso, chupe. Aproveite.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Carlos Drummond de Andrade, "As sem-razões do amor"


Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

domingo, 29 de outubro de 2017

Ferreira Gullar












"Anoitecer em outubro"

A noite cai, chove manso lá fora
      meu gato dorme
              enrodilhado
                      na cadeira

Num dia qualquer
            não existirá mais
            nenhum de nós dois
para ouvir
            nesta sala
a chuva que eventualmente caia
            sobre as calçadas da rua Duvivier

sábado, 28 de outubro de 2017

Antero de Quental, "Tese e antítese"

                         I

Já não sei o que vale a nova ideia,
Quando a vejo nas ruas desgrenhada,
Torva no aspeto, à luz da barricada,
Como bacante após lúbrica ceia!

Sanguinolento o olhar se lhe incendeia…
Respira fumo e fogo embriagada…
A deusa de alma vasta e sossegada
Ei-la presa das fúrias de Medeia!
   
Um século irritado e truculento
Chama à epilepsia pensamento,
Verbo ao estampido de pelouro e obus...
   
Mas a ideia é num mundo inalterável,
Num cristalino céu, que vive estável...
Tu, pensamento, não és fogo, és luz!     

                      I I
   
Num céu intemerato e cristalino
Pode habitar talvez um Deus distante,
Vendo passar em sonho cambiante
O Ser, como espetáculo divino.
   
Mas o homem, na terra onde o destino
O lançou, vive e agita-se incessante…
Enche o ar da terra o seu pulmão possante...
Cá da terra blasfema ou ergue um hino...
   
A ideia encarna em peitos que palpitam:
O seu pulsar são chamas que crepitam,
Paixões ardentes como vivos sóis!
   
Combatei pois na terra árida e bruta,
‘Té que a revolva o remoinhar da luta,
‘Té que a fecunde o sangue dos heróis!

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Sylvio Pinto, "Praia de Maria Angu"






















A Praia de Maria Angu era na Baía da Guanabara e ia de Ramos à Olaria.
Foi aterrada durante a construção da Avenida Brasil.
O seu nome vem de uma negra baiana que vendia comida no local.